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Em novo livro, autor entrevista cinco cardeais e diz que Papa Francisco faz revolução na Igreja

19/07/2018
Em novo livro, autor entrevista cinco cardeais e diz que Papa Francisco faz revolução na Igreja

Cinco anos depois de cobrir o conclave que elegeu o Papa Francisco, Gerson Camarotti entrevista cinco cardeais brasileiros e aponta possíveis rumos da Igreja Católica no Brasil e no mundo

 

Conhecido por sua atuação nos bastidores de Brasília e da política brasileira, Gerson Camarotti é também especialista na cobertura da Igreja Católica no Brasil e no Vaticano. Escalado para cobrir o conclave que elegeu o Papa Francisco, em 2013, o jornalista conseguiu uma entrevista exclusiva com o argentino meses depois, graças às suas fontes entre o episcopado brasileiro. Cinco anos depois, ele apresenta, em Para onde vai a igreja?, a visão de cinco cardeais brasileiros sobre a história e os desafios da Igreja no Brasil, as principais mudanças que vêm sendo implementadas pelo Papa Francisco e seus possíveis impactos no país. Na obra, Camarotti entrevista com exclusividade Dom Cláudio Hummes, Dom Odilo Scherer, Dom Orani Tempesta, Dom Raymundo Damasceno e Dom Sérgio da Rocha. Entre outros assuntos, os cardeais respondem a temas controversos, como a escassez de padres no país e uma possível ordenação de homens casados; a renúncia de Bento XVI; a investigação dos escândalos sexuais que envolveram sacerdotes e bispos; os problemas de corrupção no banco do Vaticano; e as dificuldades da migração cada vez maior de católicos para as igrejas evangélicas. Suas histórias pessoais e desafios do sacerdócio num país continental e diverso como o Brasil também são abordadas nas conversas.

Nesta entrevista, Camarotti conta como foi o processo de produção de livro, fala das diferenças entre a cobertura da Santa Sé, em Roma, e da Praça dos Três Poderes, em Brasília, e fala de sua relação e admiração por Dom Hélder Câmara, a quem compara ao Papa Francisco.

 

Você foi o primeiro jornalista a obter uma entrevista exclusiva com o Papa Francisco e tem tido acesso a um círculo bem fechado da cúpula da Igreja Católica no Brasil. Como conseguiu entrevistar os cinco cardeais e como consegue conciliar essa cobertura com a sua rotina em meio aos bastidores da política em Brasília?

O grande desafio foi justamente conciliar a cobertura diária da política em Brasília com a preparação do livro. Para pautar as entrevistas, tive que revisitar os principais temas da Igreja Católica e fazer um estudo de fôlego. Quando ia começar a marcar os encontros, estourou o escândalo da JBS e tive que interromper todo o cronograma. Depois, marquei as entrevistas, de acordo com a agenda bem complicada dos cardeais, que estão sempre viajando pelo Brasil e pelo exterior, e tirei férias para fazê-las. De qualquer forma, eu tento me manter sempre atualizado nessa cobertura da Igreja. Acompanho as notícias e, durante as minhas viagens ao Rio, por exemplo, sempre encaixo na agenda encontros com integrantes da Arquidiocese. É um trabalho diário, que foi aprofundado na hora de fazer o livro.

Nas entrevistas, você tocou em muitos pontos polêmicos, como a divisão na Igreja com a Teologia da Libertação, a ordenação de homens casados para atender à demanda por mais sacerdotes nas diversas igrejas espalhadas pelo Brasil, entre outros. Ou seja, teve liberdade total para perguntar e também respostas para tudo, certo? Algum tema causou mais desconforto?

Eu estou há alguns anos em contato com cardeais e integrantes do Episcopado e venho fazendo matérias importantes sobre o tema, como a cobertura dos dois últimos conclaves e a entrevista com o Papa Francisco. De modo que há uma confiança no meu trabalho. Quando apresentei o projeto do livro, também tive um retorno positivo, eles acreditaram nele. É um livro jornalístico, então todos os temas deveriam ser abordados, de maneira respeitosa, mas firme. Há temas delicados na Igreja, mas nenhum dos cardeais se furtou a comentar, mesmo que não dessem respostas definitivas e objetivas. Apesar de tocar em assuntos polêmicos e, por vezes, constrangedores, como os escândalos sexuais e os problemas com o banco do Vaticano, a renúncia do Papa Bento XVI e a posição antagônica de alguns cardeais contra o Papa Francisco, o livro não tem um intuito sensacionalista. Não era meu objetivo apenas criar polêmica, mas discutir e refletir sobre tudo. Sobre os cardeais, cada um tem a sua característica: uns falam de forma mais detalhada, outros de forma mais indireta. Por isso achei importante ouvir cinco, para ter, no conjunto, um pensamento da Igreja, mantendo a representatividade de cada um.

Você parece dominar toda uma linguagem em torno da Igreja Católica, desde o nome das indumentárias e cargos até os termos utilizados por eles nos documentos oficiais. Isso é fundamental na hora de fazer as entrevistas, não? Um jornalista que sabe do que está falando.

Sim, muito. Isso faz a diferença. Eu leio muitos documentos oficiais e já conheço muitos termos específicos, que, aliás, tanto no livro quanto nas matérias, preciso traduzir numa linguagem jornalística. Há muitos termos em latim nas encíclicas, por exemplo. O termo purpurado, sinônimo de cardeal, não é muito usado por aqui, mas a imprensa portuguesa e a inglesa usam. Purpurado vem de púrpura, a cor da roupa do cardeal.

O que o atrai na cobertura da Praça dos Três Poderes, em Brasília, e a Praça São Pedro, em Roma? E quais os pontos em comum na forma de fazer política nesses dois centros de poder tão distintos?

As duas são coberturas políticas, mas com diferenças substanciais. A Santa Sé é completamente diferente do Congresso Nacional porque é muito mais sofisticada. No Congresso Nacional não existe muita sutileza na abordagem dos temas e as conversas com os parlamentares são muito mais diretas, mais naturais. A instituição católica tem dois mil anos de diplomacia e tradição. Aqui nossa democracia é recente, vem de 1985 para cá e é muito verde ainda. Agora, nas duas há eleição, disputa de poder, formação de grupos. Outra diferença é que na Igreja as eleições contêm o elemento da fé. No conclave, os cardeais se dizem imbuídos do Espírito Santo para fazer as escolhas. Por isso, é uma eleição tão difícil de cobrir. Até porque não há sequer uma candidatura. Elas são implícitas. De novo, pensando no conclave, os cardeais ficam fechados, não falam com ninguém, não têm acesso às notícias.

Você conta na apresentação do livro que acompanha os assuntos do Vaticano e da Igreja no Brasil desde pelo menos a década de 90. Isso começou quando você ainda trabalhava em Pernambuco e cobriu a fase final da conturbada transição na Arquidiocese de Recife e Olinda, com a substituição de Dom Hélder Câmara. Queria saber como foi a sua relação com esse importante religioso no Brasil, que, como o Papa Francisco, também tinha um trabalho forte voltado aos mais pobres.

No início dos anos 90, quando comecei a cobrir a Igreja Católica, ainda havia reflexos da transição traumática na Arquidiocese de Olinda e Recife com a saída do Dom Hélder. O sucessor dele, um Arcebispo de perfil progressista, foi Dom José Cardoso Sobrinho, de perfil mais conservador. O trauma se estendeu para as paróquias, onde havia confrontos entre os padres anteriores e os que estavam assumindo também. Foi uma cobertura muito importante e que mobilizou a imprensa em Pernambuco. Eu cobria cidades nessa época e passei a cuidar desse assunto no jornal. Dom Hélder foi um dos personagens mais importantes da Igreja brasileira. Ele fundou a CNBB no Rio de Janeiro, participou do Concílio Vaticano II, um encontro muito importante, convocado pelo Papa João XXIII e que provocou mudanças profundas na Igreja, como o início da celebração das missas não mais em latim, mas nas línguas locais. Dom Hélder era muito atuante durante o período da ditadura militar no Brasil, tem um histórico de luta pelos direitos humanos e foi uma voz que denunciava as torturas nos porões do regime. Eu fiz a primeira matéria sobre os arquivos dele, que tinha documentos e cartas e que estão hoje no Instituto Dom Hélder, para o qual estou doando os direitos da primeira tiragem desse livro. Dom Hélder tem um perfil muito semelhante ao do Papa Francisco. São dois religiosos com uma presença forte e próxima ao povo, dedicados aos mais pobres e com um diálogo muito direto, simples, com as pessoas. O Papa Francisco, agora na Copa, mandou uma mensagem para o brasileiro não desanimar diante da derrota no futebol e das dificuldades da crise econômica. Essa simplicidade e preocupação com o dia a dia das pessoas me impressiona muito. Dom Hélder também era assim.

O livro já está disponível nas principais livrarias do Brasil.

 

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